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quinta-feira, 17 de março de 2016

Resenha: O PRIMO BASÍLIO - Eça de Queirós

O PRIMO BASÍLIO é uma das principais obras do Realismo Português. Escrito pelo mestre Eça de Queirós, o livro traz a história de um triângulo amoroso entre Jorge, Luísa e Basílio. A amargura e o despeito da criada Juliana dá o tempero ideal à trama, fazendo o leitor refletir sobre diversas questões. Em um estilo ácido e contundente, o autor expõe as hipocrisias e falhas da sociedade lisboeta da época. Com certeza, é um livro que merece ser lido, discutido e comentando até os dias de hoje!




Numa trama cheia de personagens tipicamente burgueses, Eça de Queirós denuncia a falsidade de uma classe social ociosa que só se preocupa com as aparências. Através de Luísa, a mocinha fútil e cheia de ideais românticos, o autor critica o Romantismo e a influência perigosa dos romances idílicos na vida das moças burguesas da época. É, realmente, o retrato de uma época!

Veja as palavras de Eça ao seu amigo Teófilo Braga sobre O PRIMO BASÍLIO:

Ataco a família lisboeta, - a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem (...), um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa.

O diretor Daniel Filho dirigiu, em 1988, uma adaptação da obra para a TV. Um trabalho brilhante, executado por ótimos atores, com especial destaque à inesquecível Marília Pêra, no papel da vingativa Juliana. 


Jorge (Tony Ramos), Luísa (Giulia Gam) e Basílio (Marcos Paulo)

Marília Pêra no papel da criada Juliana


Quer saber mais detalhes sobre a obra?
Assista à resenha em vídeo:


sexta-feira, 11 de março de 2016

Resenha: AS VANTANGENS DE SER INVISÍVEL - Stephen Chbosky




AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL é muito mais do que um livro recreativo para adolescentes. Com uma narrativa sensível e bem envolvente, o autor nos mostra o dia a dia do jovem Charlie. Na companhia de seus amigos Patrick e Sam, o protagonista compartilha com o leitor suas dúvidas, medos, inseguranças e alegrias. 




O livro é ótimo, e o filme também! A adaptação para o cinema foi muito bem feita, o que deu vida e brilho aos personagens originais. Além disso, a trilha sonora é excelente, mostrando o melhor dos anos 90. Muito legal!
A cena do túnel é uma das minhas preferidas. Leia o trecho do livro e assista à cena do filme AQUI.

Quer saber mais detalhes? 
Veja a resenha em vídeo:


quarta-feira, 9 de março de 2016

Resenha: CEM ANOS DE SOLIDÃO - Gabriel García Márquez

Publicado pela 1ª vez em 1967, CEM ANOS DE SOLIDÃO é considerado um dos mais importantes livros da literatura latino-americana. Narrada no peculiar estilo chamado Realismo Fantástico (escola literária onde fatos mágicos e irreais são aceitos como naturais e corriqueiros pelos personagens), esta obra do escritor colombiano Gabriel Gárcia Márquez tem o poder de despertar a paixão de muitos leitores ao redor do mundo. 





A narrativa descreve cem anos da trajetória da família Buendía, iniciada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán. Este casal teve três filhos (José Arcadio, Aureliano e Amaranta) e depois adotaram como filha Rebeca, que ficou órfã de pai e mãe. A história das gerações dos Buendía é narrada em um estilo único, peculiar, original e extremamente bem escrito. Muitos personagens se juntam à trama e fatos extraordinários acontecem ao longo desses cem anos, na fictícia e isolada cidade chamada Macondo, porém o fio condutor da obra é a solidão que assola a todos nós, seres humanos, desde nosso nascimento até o dia de nossa morte.


Árvore Genealógica da Família Buendía


Este livro costuma despertar a paixão de muitas pessoas, porém sua leitura exige uma atenção plena do leitor, pois o volume de informações é imenso e a repetição dos nomes José Arcadio e Aureliano na maioria dos personagens masculinos pode causar uma certa confusão. Os capítulos são bastante longos, o que também requer concentração e disciplina. 


No romance, o tempo é percebido como cíclico, não exatamente linear, e é por isso que os nomes José Arcadio e Aureliano se repetem tanto. O destino dos personagens é propositalmente repetitivo, como se um nome predestinasse o sujeito a ter uma certa sina, um futuro pré-determinado. Podemos notar que todos os José Arcadio são bastante impulsivos, energéticos, voluntariosos, extrovertidos e trabalhadores. Já os Aurelianos são criaturas pacatas, introvertidas, introspecctivas e estudiosas.


Melquíades y sus Pergaminos, de Carlos Ferreyra.

 
O personagem que mais me agradou foi Melquíades, o cigano, pois ele é um elemento que traz novidades e mudanças à vida enfadonha de Macondo. Além disso, seus pergaminhos foram o elemento essencial da trama e explicam muita coisa no final da história. 


Veja a resenha em vídeo: 



segunda-feira, 7 de março de 2016

Para que serve a Literatura?

Muito se tem discutido sobre as funções da arte em geral e em especial sobre a função da literatura. As opiniões são diversas, às vezes contraditórias, variando no decorrer do tempo, já que cada época atribui valores diversos às coisas.
Resumidamente, temos as seguintes considerações a respeito das funções da literatura:

a) Arte pela arte
É uma teoria que nega qualquer finalidade prática à arte. Assim, uma obra literária existe em si, por si, para si e foi escrita unicamente pelo prazer de escrever, não importa que uso o leitor faça dela. Quem defende esse ponto de vista não relaciona arte e vida, procurando desvincular a literatura de qualquer outro fenômeno cultural e social.

b) Literatura como mecanismo de evasão
Evasão equivale a fuga, escape. Segundo alguns estudiosos, a arte preencheria a necessidade de evasão do ser humano. Essa fuga a determinadas circunstâncias e situações de vida e do mundo deve ser considerada em duplo sentido: no que diz respeito ao autor, que constrói um mundo imaginário, novo, inédito, diferente daquele com o qual se sente em desequilíbrio e do qual busca se evadir; e no que diz respeito ao leitor, que mergulha nesse mundo novo para fugir da realidade, mergulhar no imaginário, compensando assim as "falhas" que encontra no mundo real.
Nos dois casos, a literatura seria uma espécie de compensação para o mundo real, um espaço de aspiração e sonhos.

c) Literatura como forma de conhecimento do mundo e do homem
Considera-se que a literatura pode funcionar como meio de revelação das "verdades da vida". Nesse caso, ela é vista como um instrumento de análise e compreensão do homem e do mundo.
Para os que aceitam essa teoria, a literatura teria a capacidade de fazer o leitor refletir sobre seus problemas existenciais, pois o texto literário seria capaz de sugerir uma realidade mais profunda do que a realidade imediata do leitor.
A literatura proporcionaria a vivência de situações impensáveis ou impossíveis no cotidiano, assim como propiciaria ao leitor a possibilidade de encontrar, no mundo ficcional, reflexos de suas próprias angústias, paixões, alegrias, desencantos...
Além disso, a literatura permitiria tomar conhecimento de outras realidades culturais, distantes do leitor no tempo e no espaço.

d) Literatura como catarse
Catarse vem do grego kathaíro, que quer dizer "queimar". Na linguagem médica, catarse é o termo que designa a eliminação de substâncias corporais maléficas e o consequente reequilíbrio da saúde.
Na linguagem religiosa, a palavra designa a purificação do indivíduo através de rituais.
A arte tomou emprestado o termo à filosofia para designar o seguinte mecanismo: ao entrar em contato com os problemas das personagens, colocando-se no lugar delas, projetando nas personagens seus próprios conflitos, o leitor consegue aliviar suas tensões, pelo menos enquanto está lendo. E, no fim da leitura, ainda que tenha sofrido junto com a personagem, resta o alívio de saber que tudo não passou de ficção.
A função catártica da arte ocorreria com maior intensidade no teatro, em que o espectador assiste a uma "representação da vida".

e) Literatura como instrumento político
Alguns críticos e muitos autores consideram a literatura como um instrumento que deveria ser empregado a serviço de uma causa em que acreditam. Nesse caso, só teriam valor as obras que, de alguma forma, contribuíssem para a transformação do meio social em que o escritor atua. Trata-se de uma teoria oposta à da arte pela arte. 
(Faraco & Moura - Literatura Brasileira)


terça-feira, 1 de março de 2016

Resenha: VERSO EM VOZ (Antologia Sonora) - César Magalhães Borges

A resenha de hoje é sobre um livro de poesia visual e auditiva, idealizado e escrito por César Magalhães Borges (poeta, escritor e professor universitário). A obra se chama VERSO EM VOZ (Antologia Sonora), e é uma coletânea de vários poemas do autor, reunidos em um esmerado trabalho gráfico e sonoro:




O autor escolheu alguns de seus poemas mais interessantes e os presenteou com  uma roupagem musical exclusiva, ou seja,  criou uma identidade musical para cada um deles. Um CD com 37 faixas acompanha o livro, e o leitor tem a opção de ouvir a declamação dos poemas ou somente lê-los impressos, ou então, fazer ambas as coisas. 


QUIXOTES


Além de algumas explicações acerca dos poemas escolhidos, podemos ouvir a declamação dos mesmos com arranjos musicais muito bem elaborados. Um trabalho bastante dinâmico e criativo!


PÃO


 MOSCA

 
César foi meu professor na faculdade de Letras, e é meu amigo desde os meus 12 anos de idade, quando fiz um curso de violão na cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, e ele nos dava excelentes aulas de Arte Literária. Sempre acompanhei seu trabalho como escritor ao longo do tempo, porém VERSO EM VOZ teve um significado especial para mim: tive a honra e a alegria de participar do projeto! :)




Minha colaboração foi tocar flauta transversal na faixa 05 do CD, no poema "Cordas". Toquei pequenos trechos das canções The fool on the hill e Mother nature's son, dos Beatles, Let'em in, do Paul McCartney e também algumas notinhas do Bolero, de Ravel. Adorei participar!!!




Para adquirir o livro ou conhecer mais sobre o trabalho do autor, acesse AQUI.


VEJA A RESENHA EM VÍDEO:


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Resenha: 70 HISTORINHAS (Carlos Drummond de Andrade)

Para quem está procurando uma leitura de entretenimento de altíssima qualidade, a dica é o divertido 70 HISTORINHAS, do brilhante escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade:




O livro é uma coletânea de contos e crônicas do autor, lançado em 1978 pela Editora Record. Ao longo das páginas, podemos encontrar historinhas curtas a respeito de temas diversos, algumas com tom leve e divertido, outras com uma profundidade ímpar escondida nas entrelinhas. Temos contos quase infantis, inocentes, escritos em linguagem simples, e outros super bem redigidos, com vasto vocabulário e riqueza de metáforas. 

As historinhas que mais me agradaram foram:

- CORAÇÃO SEGUNDO (Leia AQUI): conta a história de um homem que, cansado de sobrecarregar seu coração com emoções, decide instalar em seu peito um coração segundo, ou seja, um coração artificial. "De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir." 
Nesse conto o autor mostra como a empatia nos torna mais humanos, mais próximos de nós mesmos, e como a indiferença nos torna doentes e isolados socialmente.


- O TELHADO: esse conto, a meu ver, fala sobre o vitimismo e as crenças que temos a respeito de nós mesmos e do mundo. Biguá, um homem que morava no morro, vê seu barraco ser parcialmente destruído após uma chuva torrencial. Ignorando todas as chances de superar essa situação, rechaçando as palavras de incentivo dos colegas e conhecidos, Biguá se afunda em uma espiral de pessimismo crônico. O autor nos mostra, de maneira subliminar, como as nossas crenças nos definem e guiam nosso comportamento frente ao mundo.


- QUADRO NA PAREDE: esse é um conto muito bem escrito, em forma de um duelo verbal muito bem estruturado. Durante o café da manhã, o Sr. e a Sra. Borges discutem por causa de um quadro torto na parede. Os argumentos deixam transparecer mágoas antigas e acumuladas durante os longos anos de convívio do casal. O autor mostra como ressentimentos que querem explodir encontram, nas coisas pequenas do dia a dia, sua chance de vir à tona.


- BONECA TRISTE (Leia AQUI): é a história de um homem obcecado por uma boneca. Ele vaga por lojas e exposições procurando por uma boneca que sumiu de sua casa, e, ao longo da leitura, ficamos na dúvida se se trata de uma boneca mesmo ou de uma mulher. É um conto enigmático! rs

 
- JACARÉ DE PAPO AZUL: em forma de diálogo e narrado em primeira pessoa, essa historinha lembra bastante Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Um caçador de jacarés bastante comunicativo conta suas aventuras com um jacaré de papo azul, que um dia apareceu no rio onde ele costumava caçar e tornou-se seu amigo. O narrador conta como começou sua amizade com o bicho, e o curioso é perceber que somente após esse episódio o homem se deu conta de que seu ofício era matar seres vivos. Seu conflito moral se mostra ao longo da narrativa, e no final fica evidente que a necessidade física e financeira é, na maior parte das vezes, mais forte do que nossos ideais. 

É um livrinho muito agradável de ser lido, e seu estilo leve e despretensioso mostra a grandeza de Drummond, nosso grande escritor brasileiro!

Veja a resenha em vídeo:


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Resenha: CORAÇÃO DE VIDRO (José Mauro de Vasconcelos)

Li Coração de Vidro quando criança, por volta dos 9 anos de idade e me lembro nitidamente do quanto esse livro me tocou na época. Com histórias simples e bastante tocantes, a obra fala sobre temas universais na vida de todos nós. 




O livro contém quatro pequenas historinhas, e todas elas se passam numa fazenda. Essas histórias são narradas em primeira pessoa, mostrando a perspectiva e os sentimentos de quatro personagens:  um pássaro azulão, um peixe vermelho, um cavalo dourado e uma mangueira-moça. 
Veja uma pequena sinopse de cada historinha:

* História nº 1: A missa do Sol
O conto relata a trajetória de um passarinho azul que foi tirado de seu habitat natural e preso numa gaiola. Os sentimentos de impotência, solidão e tédio são descritos de maneira muito sensível e melancólica.

* História nº 2: O Aquário
Clóvis, um peixe vermelho bastante vaidoso e esnobe, é tirado do açude da fazenda e levado para uma loja de animais de estimação. Incomoda-se com o ambiente e com os novos colegas, até que é comprado por uma mulher rica e tem seu próprio aquário. Entretanto, ele percebe que a solidão pode ser pior do que o desconforto material e físico.

* História nº 3: O cavalo de ouro
Saturno, um cavalo dourado extremamente elegante e bonito, é levado do convívio da família para ser treinado como cavalo de corrida. Desafortunadamente, sofre um pequeno acidente e é colocado de lado porque não pode mais correr. Esse conto mostra claramente o quanto as pessoas valorizam as outras enquanto delas podem tirar algum benefício e/ou vantagem, e como se tornam insensíveis e ingratas quando não precisam mais do outro.

* História nº 4: A Árvore
Dona Candoca é uma frondosa mangueira-moça que vive no fundo do pátio da fazenda. Tem uma vida tranquila e é a melhor amiga do "príncipe", um garotinho de quatro anos que todos os dias conta-lhe todas as suas aventuras e emoções. Porém, um dia o menino cresce e vai embora. A história mostra como podemos, sem querer, valorizar pessoas que não nos dão valor algum.

Temos algumas temáticas comuns aos quatro contos, como:
- A valorização da liberdade;
- Saudade e nostalgia;
- A questão da solidão a que todos estamos expostos;
- O respeito aos animais como seres que possuem sentimentos, consciência e inteligência;
- A preservação da natureza e do meio ambiente;
- Os efeitos nocivos da intervenção do homem no habitat natural dos animais e das plantas.

Certamente, é um livro muito adequado para despertar sentimentos de empatia nas crianças, pois o autor deixa bem claro, em várias passagens, o quanto a intromissão humana pode ser nefasta na natureza. Além disso, vendo o mundo através dos olhos de um bichinho ou de uma árvore, o jovem leitor pode criar valores positivos e respeitosos em relação a todos os seres vivos. Super indico!

Veja a resenha em vídeo:


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Teoria do Caranguejo (Julio Cortázar)

Tinham construído a casa no limite da selva, orientada para o sul evitando assim que a umidade dos ventos de março se somasse ao calor que a sombra das árvores atenuava um pouco.

Quando Winnie chegava

Deixou o parágrafo no meio, empurrou a máquina de escrever e acendeu o cachimbo. Winnie. O problema, como sempre, era Winnie. Quando tratava dela a fluidez se coagulava numa espécie de

Suspirando, apagou numa espécie de, porque detestava as facilidades do idioma, e pensou que não poderia continuar trabalhando até depois do jantar; as crianças logo iam chegar da escola e ele teria que preparar o banho, fazer a comida e ajudá-las nos seus

Por que no meio de uma enumeração tão simples havia como um buraco, uma impossibilidade de continuar? Era incompreensível, pois tinha passagens muito mais árduas que se construíam sem nenhum esforço, como se de algum modo já estivessem prontas para incidir na linguagem. Obviamente, nesses casos o melhor era

Largando o lápis, pensou que tudo se tornava abstrato demais; os obviamente os nesses casos, a velha tendência a fugir de situações definidas. Tinha a impressão de estar se afastando cada vez mais das fontes, de organizar quebra-cabeças de palavras que por sua vez

Fechou abruptamente o caderno e saiu para a varanda.

Impossível deixar essa palavra, varanda.
(Julio Cortázar)




 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Considerações acerca da goiaba (Cecília Meireles)

Muitas pessoas sabem o que seja goiabada; mas talvez nem todas elas já tenham visto uma goiaba. Aliás, a goiaba já fez a confusão de um velho cronista do Brasil, que a descreveu pegada ao tronco da goiabeira. Decerto, entre seus olhos e seus ouvidos produziu-se uma compreensível atrapalhação, fazendo falar de goiaba e pensar em jabuticaba... (A rima, às vezes, é traiçoeira...)
Os indígenas, que sempre deram nomes certos às coisas, parece que a chamavam a-covab para dizerem que era um ajuntamento de caroços. Na verdade, ela é pouco mais do que isso. E em certo idioma da Índia, quando se quer dizer goiaba diz-se pêra, que é assim que ela se chama. (Agora, quando se quer dizer pêra não se deve dizer goiaba... Isso já seria engraçado demais!)
Penso em tudo isto porque estou vendo, à porta de uma confeitaria, uma goiaba que custa sessenta cruzeiros. Sessenta cruzeiros: quer dizer, quase um litro de leite, umas cinquenta gramas de manteiga, meio quilo de pão... (Bem, não me atrevo a continuar, porque os preços sobem a cada instante, e podem já não estar atualizados...) Em todo caso, a goiaba custa sessenta cruzeiros.
As goiabas estão ali arrumadinhas na caixa. De aparência modesta, mas de escandaloso perfume. Às vezes como o das angélicas, o perfume das goiabas causa até um grande mal-estar. Mas é quando estão muitas juntas; pois, separadamente, desprendem um cheiro delicioso. Como as pessoas que, sozinhas, são delicadas e encantadoras e, num grupo, não se sabe como, se tornam vulgares e até estúpidas.
O que eu lamento é que os passantes olhem para as goiabas, para o preço, e não se detenham: as goiabas não lhes dizem nada a não ser que são uma fruta de cheiro excessivo e de custo muito alto.
Isso me entristece, pois a goiabeira é uma árvore meio torta, de folhas todas riscadinhas, e cujo tronco se descasca como se fosse papel. Por baixo, a madeira é lisa e bonita que nem marfim. Antes da goiaba nascer, aparece uma flor tão alva, tão gloriosa, coroada de ouro e seda branca! uma flor que lembra a Estrela da Manhã. Há um movimento de vespas, de abelhas, em redor dessas flores. Depois, a goiaba é um pequenino botão verde; depois, é um fruto oval e amarelo, cetinoso e perfumoso. Quando se parte, ela abre um sorriso de dentinhos cor-de-rosa. Tão grande é o seu perfume, tão tenra a sua polpa, que, muitas vezes, antes mesmo das crianças, são os passarinhos que a provam. E nesse dia cantam muito melhor.
Eis o que é, mais ou menos, uma goiaba. De modo que, embora não as vendam, mas para mostrar quanto as estimam, os senhores mercadores deviam pedir por elas não sessenta cruzeiros - preço vil - mas seiscentos e até mais. 
(Cecília Meireles - O que se diz e o que se entende)




sábado, 6 de fevereiro de 2016

Resenha: LA CRUZ DEL DIABLO (Gustavo Adolfo Bécquer)

Para quem está estudando Espanhol e curte a leitura de Graded Readers (livros em Língua Estrangeira facilitados e adaptados para estudantes), uma boa pedida é La Cruz del Diablo, de Gustavo Adolfo Bécquer. O livro foi adaptado por Rosana Acquaroni Muñoz e é adequado para o nível 3 (intermediário - até 1000 palavras).





Veja a sinopse:
A la derecha de un camino perdido entre montañas, olvidada del tiempo, hay una extraña cruz. Nadie deve acercarse a ella: esa cruz no es de Dios, sino del diablo. Si queréis saber qué ha ocurrido, acercaos al pueblo de Bellver. Os hablarán de crímenes horribles, ruinas y misterios. Es la historia de un pequeño pueblo que tuvo que pelear contra el mismo diablo.

É um livrinho de rápida e fácil leitura. Ideal para os alunos que já começaram a estudar os pretéritos da Língua Espanhola. No final da edição, há uma proposta de atividade de compreensão, com perguntas dirigidas, que podem ser respondidas oralmente ou por escrito. Ao longo da obra, as diversas ilustrações também ajudam na interpretação correta do texto. Bem bacana! :)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Resenha: O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE (Cecília Meireles)

Cecília Meireles (1901-1964), uma das maiores escritoras brasileiras, é mais conhecida como poetisa, e é lembrada principalmente pelos poemas Motivo:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
(leia o poema completo aqui)

e Retrato: 

Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil: 
Em que espelho ficou perdida a minha face?
(leia o poema completo aqui


Entretanto, a autora tem uma produção bastante profícua em prosa e um de seus livros mais expressivos de crônicas é O que se diz e o que se entende:




Lançada em 1980, a obra narra, em crônicas curtas e elegantemente redigidas, episódios da infância de Cecília, suas lembranças da escola e da babá Pedrina, sua viagem à Índia e também sua percepção a respeito das mudanças da humanidade, como por exemplo a frieza das relações pessoais e a falta de cuidado e respeito com o meio ambiente e os animais. 

A escritora sempre foi vista como alguém que produzia versos nostálgicos e transcendentes, abordando com frequência questões metafísicas, a transitoriedade das coisas e da vida em si, mas nessa obra uma outra faceta sua se mostra. Cecília revela sua preocupação com as questões práticas da vida, criticando diretamente posturas que a incomodam. 

Dentre as crônicas do livro, gostei muito de Patinação (leia aqui), que descreve, com imagens sensíveis, vívidas e delicadas, a dança cadenciada dos patinadores, e nos convida a imaginar o quão prazeroso seria se pudéssemos "patinar" pela vida, suavemente. A crônica que dá nome ao livro, O que se diz e o que se entende, também me agradou muito. A autora comenta sobre as dificuldades que temos em nos fazer entender atualmente, já que nem sempre as pessoas estão dispostas a nos ouvir. Por fim, Centenário de Okakura Kakuzo também me tocou, pois descreve a sutileza de um livro chamado O Livro do Chá, que nos incentiva a apreciar a beleza do ritual japonês do chá, convidando-nos a degustar a tradicional bebida de maneira tranquila e graciosa. 

Foi uma leitura muito agradável. Super recomendo!! :)

Veja a resenha em vídeo:


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

ESPELHO (Cecília Meireles)

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?
(Cecília Meireles) 


John William Waterhouse

Gosta de Arte? Sim? E de Literatura?
John William Waterhouse (Roma/1849 - Londres/1917) foi um pintor inglês conhecido por suas obras no estilo pré-rafaelita, geralmente retratando mulheres da mitologia e das lendas do Rei Arthur. Além disso, o artista também apreciava representar em seus quadros personagens de obras literárias, como é o caso de Miranda, protagonista da peça de Shakespeare A Tempestade. Veja:


Miranda - The Tempest - 1916

The Siren - 1900

Cleopatra - 1888

Magic Circle - 1886

Mermaid - 1901

My Sweet Rose - 1908

Undine - 1872

Oracle - 1884


Ophelia - 1894

Psyche - 1903

A beleza desses quadros é impressionante! Mais prazeroso ainda é saber que cada um deles foi inspirado numa musa da Literatura. Certamente o pintor leu as obras de referência e retratou as personagens segundo sua própria interpretação, sua sensibilidade particular. Esse é o poder mágico da Arte, capaz de tornar concretas as mais delirantes figuras da nossa imaginação!

Para conhecer mais sobre o artista, acesse o site John William Waterhouse Oil Paintings, página dedicada à memória do pintor. Lá você poderá ter maiores informações sobre sua vida e obra e se deleitar com a erudição de seus quadros.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Patinação (Cecília Meireles)

O admirável não é apenas que as roupas sejam tão belas, que os movimentos se desenvolvam com tanta harmonia: o admirável, principalmente, é que tudo isso deslize sobre patins. As figuras vêm de longe, velozmente, mas numa velocidade suave, silenciosa e feliz. Devíamos andar assim no mundo. Nossos trajetos deviam cruzar-se desse modo: sem choques nem pausas, com um desenho de cortesias que se entrelaçam delicadamente. E vem a ser justamente a mais adequada ao conjunto, como se a submissão à lei não lhe diminuísse o valor próprio mas, ao contrário, o salientasse e lhe revelasse imprevistos aspectos.
Alguma coisa fugidia, apaixonada de distância e mistério existe no nosso coração, pela delícia que nos causam os movimentos dos patinadores retirando-se implacável e sutilmente, como um som que gradativamente se apaga, uma estrela que, inexorável, desaparece. Os patinadores vão sendo levados, num tempo mais profundo que o do seu bailado, absorvidos pelo ímã do horizonte, inalcançáveis e íntegros como deuses.
Alguma coisa também deve existir em nós atraída pela resposta do eco, ansiosa de repercussões e espelhos, para nos encantarmos com os patinadores que se acercam e reconhecem e combinam seus abraços com esse perfeito ritmo em que confundem e recuperam sua unidade, aproximando-se e separando-se, livres e prisioneiros, deixando que se cumpra com rigor e graça a parábola de seus encontros e desencontros.
Pensa-se que isto é uma distração frívola, e está-se diante da verdade do mundo, iluminado de outro modo, com algumas pessoas interpretando esta vida de cada dia, apenas alegoricamente.
Alguma coisa deve existir em nós que se recusa a andar levitando entre as douradas estrelas: que ainda não se desprendeu totalmente da selva, da burla, do árido ensinamento do chão. Porque deste modo nos regozijamos com as presenças grotescas, e as formas inseguras, e o medo e o risco, a aventura talvez inábil do gesto incerto... Pode ser que não sejamos sempre desmesuradamente líricos: um prosaísmo pesado, espesso, talvez compense em banalidades rasteiras o ímpeto com que, outras vezes, nos atiramos a altas e inquietantes expedições. . .
Mas é tudo sobre patins, num abrir e fechar de olhos, sem que mais nada nos detenha, porque já partimos, seguimos, continuamos, estamos sendo levados, pela nossa vontade e pela fatalidade deste escorregar por uma superfície gelada.
Alguma coisa em nós deseja a solidão, a companhia da própria sombra, apenas, para assim nos emocionarmos com o dançarino isolado que se debruça para o seu reflexo, que em si mesmo se encontra, seus pés unidos perpendicularmente a seus pés, e assim vai, e volta, e não volta, fazendo o seu caminho no vazio, inventando um itinerário e uma direção.
Mas alguma coisa nos atrai para o convívio e o colóquio, pois assim nos alegramos com a multidão festiva que se reúne e desdobra numa infinita coreografia, toda cintilante e entusiástica, depois de tantas provas acrobáticas, de tantas evoluções e tantos e tão variados arabescos.
Sobre patins. Com essa rapidez que desejaríamos ter, que o nosso pensamento, o nosso coração desejam, e este nosso corpo fatigado não consegue possuir. Sobre patins. Num mundo sem esquinas, sem acidentes, com os espaços oferecendo-se à nossa passagem, e todos nós, cordiais e puros, realizando em sua plenitude o ideograma da nossa vida na clara página da existência. Sobre patins. Com a disciplina fluida de cada instante, de horizonte a horizonte, sem erro, temor nem desfalecimento!
(Cecília Meireles - O que se diz e o que se entende

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O Corvo - Edgar Allan Poe (Tradução de Machado de Assis)

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!
(Edgar Allan Poe - Tradução para o Português: Machado de Assis)



sábado, 24 de outubro de 2015

Aula de Inglês (Rubem Braga)

—  Is this an elephant?

Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.

Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.

Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:

—  No, it's not!

Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:

—  Is it a book?

Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras — sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:

—  No, it's not!

Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita — mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.

—  Is it a handkerchief?

Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:

—  No, it's not!

Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.

Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.

—  Is it an ash-tray?

Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray.  Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.

As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três — na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:

—  Yes!

O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam — vitória! vitória! — e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta.  Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:

—  Very well!  Very well!

Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.

Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:

--  It's not an ash-tray!

E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.
(Rubem Braga) 


 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Nas Entrelinhas do Horizonte

A gente faz as contas, projeta uma vida na outra, tenta se enxergar como se fosse outra pessoa... A gente busca espelhos porque viver é solitário. Busca simetrias porque a vida é torta. A simetria acalma. Talvez acalme porque nós mesmos somos simétricos. Uma linha imaginária, dos pés à cabeça, nos divide em duas partes iguais. Buscamos o que já somos? Esquecemos que essa simetria nunca é perfeita. Para o bom observador, sempre haverá uma perna mais curta, um olho mais caído, uma narina mais aberta...
Certo é que nossa mente busca simetria nas pinturas, nas catedrais e nas notas musicais. Entre passado e futuro, entre os óculos do John e o olhar do Paul, entre Beatles e Stones, nas cores da barba e do cabelo, assim no céu como na terra, assim na serra como no litoral. Entre mãe e pai, pai e filho, num par de filhos, a gente idealiza simetrias que não existem. Buscamos fatos que se repitam, uma ordem, um sentido, um padrão, um padrão, um padrão... um padrão que não há.
O mundo é ímpar, não dá pra dividi-lo em duas metades iguais.
(Humberto Gessinger - Nas Entrelinhas do Horizonte)




sábado, 8 de agosto de 2015

Destino, um confortável desejo.

Mário Quintana, poeta modernista que, por pouco, não atravessou vivo todo o século passado, é autor de deliciosa obra de leitura do cotidiano (premiada em seu conjunto pela Academia Brasileira de Letras, na qual tentou por três vezes ingressar e foi derrotado). O gaúcho sempre foi um frasista militante de alta qualidade e, durante anos, publicou muitas dessas frases em jornais com o título de "Caderno H" (agrupadas e publicadas em coletânea no início dos anos 1970). Uma delas toca num dos temas mais recorrentes dos nossos momentos: a ideia de destino. Disse ele que "o destino é o acaso atacado de mania de grandeza".
Destino ou acaso? Coincidência ou fatalidade? Determinismo ou liberdade?
Há uma angústia presente na necessidade de fazer escolhas e, mais ainda, na de ter de aceitar o resultado daquilo que se escolheu. Às vezes, essa angústia se transforma em desgosto, sofreguidão, atribulação, sufoco, avidez, desassossego, inquietação. A melhor forma de justificar ocorrências, legitimar frustrações ou desculpar algumas emoções desvairadas é naturalizar a origem de tudo, isto é, colocar as causas dos fatos e nos comportamentos em um patamar fora da intervenção humana, como o destino ou a natureza. Assemelha-se um pouco à síndrome de Gabriela, uma apologia do "eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim..."
O médico e escritor espanhol Gregorio Marañón, além de biografias e ensaios científicos, produziu fundamentais estudos em endocrinologia, especialmente sobre uma das vedetes de nosso tempo: a adrenalina. Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, descreveu o papel das descargas e do nível desse hormônio para explicar os processos da emoção. Porém sua sólida formação científica não o impediu de afirmar que "a pobre liberdade que os homens nos dão ou nos tiram quase nada representa ao lado da cadeia do destino herdado, que nasce enroscada em nossa alma e a vida mal pode afrouxar".
Essa apaziguadora interpretação da existência aparece inclusive em uma das poesias do filósofo Nietzsche, na qual faz menção a Epicteto, fundador do estoicismo, na Antiguidade, e criador da máxima "Suporta e abstém-te". O filósofo alemão diz: "Destino, sigo-te! E, mesmo que não o quisesse, deveria fazê-lo, ainda que gemendo".
É muito confortável proclamar a presença constante do destino; quando existe a convicção de que tudo "já está escrito", evita-se a turbulência mental que advém quando é preciso decidir, assumir ou, o que também é fulcral, enfrentar os responsáveis. É preciso prestar atenção ao que disse o Nobel de Literatura de 1915, Romain Roland: "Os homens inventaram o destino a fim de lhe atribuir as desordens do universo, que eles têm por dever governar". Talvez aí esteja a raiz de muitos dos tormentos espirituais, das aflições de consciência e das agonias pessoais: a perturbação por ter de assumir os riscos e as consequências das opções que podem ser feitas por aqueles que superaram a indigência das condições materiais de existência e, portanto, atingiram a capacidade de ir além da mera sobrevivência física cotidiana. Esses, assim como nós, não são privados de arbítrio e, portanto, devem responder socialmente pelos encargos trazidos pela liberdade. A atitude expectante, aquela que fica no aguardo do que vier, supondo a representação involuntária de um enredo previamente elaborado por forças alheias ao nosso mundo, representa uma postura negligente e até irresponsável.
Como bradou o suíço Denis de Rougemont (um dos fundadores do personalismo na filosofia do século 20 ), "a decadência de uma sociedade começa quando o homem pergunta a si próprio: "Que irá acontecer?" em vez de inquirir "Que posso eu fazer?'".
(Mário Sérgio Cortella)


sexta-feira, 10 de julho de 2015

As vantagens de ser invisível - Cena do Túnel

Depois do baile, nós fomos na picape de Sam. Desta vez foi o Patrick que dirigiu. Quando estávamos nos aproximando do túnel Fort Pitt, Sam pediu a Patrick para parar no acostamento. Não sei o que estava acontecendo. Sam então saltou para a traseira da picape, e usava só o vestido do baile, sem o casaco. Ela disse a Patrick para dirigir e ele abriu um sorriso. Acho que eles já tinham feito isso antes.
De qualquer forma, Patrick começou a acelerar o carro, e antes que chegássemos ao túnel, Sam se levantou e o vento transformou seu vestido em ondas do mar. Quando chegamos ao túnel, todo o som foi engolido num vácuo e substituído por uma música no toca-fitas. Uma linda canção chamada "Landslide". Quando chegamos ao fim do túnel, Sam deu um grito muito divertido, e foi isso. Chegamos ao centro. As luzes nos prédios e todo o resto eram maravilhosos. Sam se sentou e começou a rir. Patrick também riu. Eu comecei a rir.
E naquele momento eu seria capaz de jurar que éramos infinitos.
Com amor,
Charlie
(Stephen Chbosky - As vantagens de ser invisível)




quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Dica de Leitura: Maestria

Nesta semana terminei de ler o livro Maestria, do espetacular escritor americano Robert Greene. Sim, sou uma grande fã do cara, já li quase todas as suas obras (só não li A 50º Lei) e adoro as ideias e técnicas que ele apresenta. Seus livros são recheados de reflexões, exemplos históricos e, principalmente, técnicas para aplicarmos os conceitos discutidos. 
Em Maestria, o autor discute sobre os gênios e as invenções fantásticas que mudaram o rumo da humanidade. Fazendo uma pequena biografia de figuras como Leonardo da Vinci, Goethe, Charles Darwin, Thomas Edison, Mozart, Einstein e outros, Robert Greene analisa o aprendizado desses mestres, o desenvolvimento prático de suas pesquisas e suas criações geniais. Durante a leitura, vamos desmistificando a ideia do que é ser um "gênio". Nos ensinaram que os gênios nascem com superpoderes, dons de alma, habilidades inexplicáveis e mágicas, não é mesmo? Pois bem, analisando racionalmente a trajetória desses seres inteligentíssimos e bastante disciplinados, percebemos que seus sucessos foram frutos de muito estudo, disciplina e trabalho. Sim, TRABALHO! Ou você acha que Mozart nasceu tocando piano sem a ajuda de ninguém? rs
Gostei bastante do livro, especialmente porque o autor nos incentiva a explorar nossas potencialidades sem crenças limitantes. É óbvio que os gênios citados acima tinham uma grande FACILIDADE para suas áreas, mas ninguém nunca nos disse que eles ficaram de 10 a 20 anos imersos em seus estudos, testes e experimentos. Robert Greene nos dá várias dicas e planos de ação para expandirmos nossa inteligência e, consequentemente, nossos resultados.



Desviar-se da Maestria é negar sua existência ou sua importância, e, portanto, a necessidade de se esforçar para alcançá-la. Mas essa negação só pode levar a sentimentos de impotência e decepção, resultando na submissão ao que denominaremos falso eu.
O falso eu é o acúmulo de todas as vozes de outras pessoas que você internalizou - pais e amigos que pretendem convencê-lo a aceitar as ideias deles sobre como e o que você deve ser, assim como pressões sociais para aderir a certos valores que podem seduzi-lo com facilidade. Também inclui a voz de seu próprio ego, que constantemente tenta protegê-lo de verdades desagradáveis. Esse eu o pressiona com palavras contundentes, e, quando se trata de maestria, faz afirmações do tipo: "Maestria é coisa de gênios, de pessoas com talentos excepcionais, de aberrações da natureza. Não nasci assim, e pronto." Ou diz: "A maestria é feia e imoral. É para os ambiciosos e egoístas. É melhor aceitar meu lugar na vida e ajudar outras pessoas, em vez de enriquecer." Ou talvez: "Sucesso é sorte. Os chamados Mestres são pessoas que estavam no lugar certo, na hora certa. Eu também poderia estar no lugar deles, se tivesse um lance de sorte." Ou ainda: "Dedicar-me durante tanto tempo a algo que exige tanto sacrifício e esforço, para quê? É melhor aproveitar a vida, que é curta, e me arranjar da melhor maneira possível."
Como você já deve saber a esta altura, essas vozes não falam a verdade. A maestria não é questão de genética nem de sorte, mas de seguir suas inclinações naturais e seus anseios que o fazem vibrar por dentro. Todos têm essas inclinações. O desejo que o deixa empolgado não é motivado por egoísmo ou pura ambição, fatores que, na verdade, são obstáculos à maestria. Trata-se, em vez disso, de uma expressão profunda de algo natural, de alguma coisa que o marcou na infância, como indivíduo singular e sem igual. Ao seguir suas inclinações e ao avançar para a maestria, você faz grandes contribuições para a sociedade, enriquecendo-a com descobertas e ideias, e explorando ao máximo a diversidade da natureza e da sociedade humana. De fato, o cúmulo do egoísmo é simplesmente consumir o que os outros criaram e se recolher na concha dos objetivos limitados e dos prazeres imediatos. Alienar-se de suas inclinações só pode resultar em dor e decepção no longo prazo, e à sensação de que desperdiçou algo único. Essa dor se manifestará sob a forma de amargura e inveja, embora você não reconheça a verdadeira fonte de sua depressão.
(Robert Greene - Maestria)


UPDATE!!! (02/03/2016)
Veja essa resenha em vídeo: