segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Como lidar com um Hipocondríaco

Significado de Hipocondríaco:
adj. e s.m. Relativo ao hipocôndrio.
Fig. Triste, melancólico, sempre preocupado com sua saúde.



Certamente você já ouviu falar que Fulano ou Siclano é hipocondríaco. Conforme descrito acima, o hipocondríaco é aquela pessoa que está sempre doente, sempre reclamando de suas dores e mazelas, sempre com alguma enfermidade física ou psicológica. Geralmente são pessoas vistas como "fracas" pelos outros e, por isso, acabam recebendo um tratamento diferenciado devido às suas "limitações". Conhece alguém assim? Pois bem. Você já pensou que todo esse cenário pode ser uma grande manipulação da sua boa vontade e credulidade?

Em primeiro lugar, vamos raciocinar juntos: POR QUE uma pessoa gostaria de passar mal e de ser vista como alguém doente pelos outros? Quais benefícios alguém pode obter sentindo dores e/ou mal-estar? O que o indivíduo ganha sendo/se fingindo de doente?
Muito bem. A resposta é simples e surpreendente: ATENÇÃO. Isso mesmo, o que uma pessoa ganha ficando doente é a atenção dos demais. Quando alguém apresenta um dado comportamento (mesmo que seja um comportamento negativo) e recebe algo que aprecia em virtude dessa postura, esse ser obtém um Benefício Secundário. Por exemplo: Fulana é uma pessoa apagada, sem nada de especial em sua personalidade. Não tem talentos incomuns, não possui uma beleza extraordinária, não é dona de uma inteligência impressionante. De qualquer forma, ela quer se sentir especial, quer receber a atenção de outrem (todos nós queremos isso, obviamente). O que fazer para se colocar no centro das atenções, para ser tratada com deferência, carinho e zelo? Ficar doente, claro! Passar mal é uma excelente maneira de ganhar o apoio e a empatia dos demais!

Esse tipo de comportamento tem origem na infância. Se a criança tem pais superprotetores ou negligentes em demasia, provavelmente vai desenvolver a hipocondria a fim de obter ibope. Os pais superprotetores tendem a criar filhos fracos, medrosos e dependentes. Esse tipo de progenitores sentem um prazer inexplicável em ter os filhos sob o seu comando e não aceitam que os mesmos sejam independentes e autônomos. Uma criança "doentinha" é um prato cheio pra gente assim. Daí a criança cresce e passa a repetir a dinâmica com o cônjuge, anos depois. Eu conheci uma moça que foi extremamente mimada pela mãe, a ponto de não saber fritar um bife nem lavar um banheiro. Ela se casou com um coitado e passou a repetir toda essa dinâmica doentia com o sujeito. Ela era "fraquinha", "delicadinha", "princesinha". Se o marido a contrariava, ela começava a sentir vertigens, falta de ar, palpitações. Toda vez que havia um compromisso social/familiar na casa de alguém da família dele, ela se sentia muito mal e não conseguia levantar da cama, tamanha era sua enxaqueca. E durante o período menstrual, o pobre rapaz tinha que voltar pra casa na hora do almoço pra dar comida NA BOCA da criatura (gente, eu também sinto cólicas terríveis, mas nunca perdi um dia de trabalho por isso. Tem mulher que força a amizade, né? Trouxa é o homem que dá corda!)

Já pais negligentes criam crianças mais agressivas, duras e independentes. Como papai e mamãe não ligam, não dão a mínima, eles tendem a ser mais proativos do que os mimados. No entanto, podem também desenvolver uma hipocondria a fim de chamar a atenção dos adultos. São aquelas pessoas que só recebiam migalhas de carinho dos pais quando estavam passando mal, e também aprenderam a codificar a dinâmica "estou mal = serei bem tratado pelos outros" como um comportamento automático. Sabe aquelas pessoas que xingam, resmungam, mandam todo mundo pro inferno e depois ficam com a pressão lá na estratosfera? Então, é mais ou menos isso. Tenho uma tia assim. Ela é uma pessoa bastante controladora e agressiva, e sempre se impõe e consegue o que quer através de suas doenças. Vamos supor que ela queira passar o fim de semana na praia. Se os outros membros da família não concordarem, ela arma um barraco homérico e depois de gritar e xingar muito, cai de cama, punindo os familiares pela "desobediência" cometida. Isso mostra que nem sempre o hipocondríaco é um coitadinho bonzinho e inofensivo. Temos que considerar os dois extremos.

Geralmente, pessoas que sempre estão passando mal estão muito infelizes com a própria vida. Não é raro encontrar gente bastante insatisfeita com seus empregos/casamentos/famílias usando a hipocondria (mesmo que inconscientemente) para se defender de sua própria infelicidade. Nem sempre a pessoa está fingindo uma doença, em certos casos a pessoa realmente ARRANJA uma doença de verdade para poder fazer o que bem entende sem sofrer retaliações. A mente humana é poderosíssima e é provado cientificamente que podemos adoecer de maneira rápida e definitiva se assim o quisermos. É o caso da mulher que não suporta transar com o marido e que sempre está com dor de cabeça (cá entre nós, se a esposa REALMENTE aprecia fazer sexo com o companheiro não vai ficar inventando subterfúgios para não fazê-lo, correto?). Ou o cidadão que ODEIA seu emprego e não pode simplesmente se demitir e cair no mundo, desenvolvendo rapidamente uma gastrite aterradora. Ou o caso daquela criança que fica na escola o dia todo, em período integral, e desenvolve uma bronquite básica para papai e mamãe segurar sua mãozinha durante suas intermináveis inalações e crises.

Pessoas idosas frequentemente desenvolvem a hipocondria também. Muitos deles dispõem de excesso de tempo livre, se sentem menosprezados pela família e pela sociedade e por isso acabam se apegando a doenças, remédios e rotinas compulsivas de cuidados com a saúde. O avô de uma amiga minha adora contar todos os sintomas de suas doenças e crises, com riqueza de detalhes. Nunca ouvi aquele homem fazer uma piada ou brincadeira. Qual é a tendência de uma pessoa que age assim? Afastar todo mundo que tenta se aproximar. Afinal, sejamos sinceros: QUEM, em sã consciência, gosta de ficar ouvindo relatos de dores e mazelas? Ninguém, né? As pessoas só ouvem por educação, mas no fundo ninguém quer saber todos os detalhes da sua última endoscopia ou o que você sentiu durante o seu último exame de fezes.


Pensando em tudo isso, o que fazer? Como lidar com um Hipocondríaco?
Em primeiro lugar, não devemos dar corda para suas lamentações sem fim. A pessoa codificou em sua estrutura psicológica que passar mal = receber atenção, então sua tarefa é não alimentar essa dinâmica. LÓGICO que o indivíduo vai ficar com raiva e vai protestar quando você mudar seu comportamento, mas seja firme! Quando as choradeiras começarem, afaste-se polidamente e vá fazer outra coisa. Você será chamado de ruim, de insensível, de egoísta, mas no final das contas a pessoa vai tentar chamar sua atenção de outra forma.
Depois disso, tente mostrar à pessoa em questão que outros tipos de comportamento são dignos de apreciação e elogios. Você pode fazer isso dizendo: "Nossa, que legal seria se você aprendesse sapateado" ou "Quer jogar ludo real comigo?". Mostre à pessoa que bancar a coitada não é legal, não é digno e não atrai a admiração de ninguém. Aos poucos vá deixando patente que você não é mais um patinho inocente que cai em qualquer tipo de maquinação.
Por último, não ceda às diversas chantagens emocionais do hipocondríaco. Vamos supor que há um jantar na casa de alguém de sua família e seu cônjuge adoece de repente (pra não ir sem ter que dizer NÃO na sua cara, óbvio). Vá mesmo assim. Deixe a pessoa passando mal sozinha. Não deixe de fazer as suas coisas porque Fulano ou Siclana está tendo mais uma crise de frescura. Mostre que quem manda é você! Tenha vergonha na cara!

Para terminar, quero ilustrar tudo o que salientei acima com um belo exemplo verídico:
Tive uma conhecida que usava essa coisa de passar mal para conseguir TUDO o que queria. Eram situações que iam desde inventar dores de cabeça porque a música da festa não era do seu agrado (fazendo o dono da casa desligar o som pra não atrapalhar o conforto da princesa) até inventar dores terríveis nas costas para não transar com o marido (ela dizia para as amigas que ele tinha mau cheiro mas que ela não podia deixá-lo naquele momento devido a motivos financeiros). Gente, essa mulher inventava tudo quanto é tipo de doença para manipular as vítimas ao redor! Um absurdo! E ela era uma pessoa delicada, boazinha, de família. Ia à missa, falava baixinho, era um primor de mulher. Uma princesa, really! Só que com alma de sapo, né?
Pois bem, essa mulher vivia com o pé na cova. Com o passar dos anos, esse teatrinho foi se incorporando à sua personalidade (esse joguinho sórdido vicia!) e ela, a partir de uma certo ponto, não conseguiu mais se livrar do costume. E não é que ela arranjou um câncer de verdade? 

Pois é, sei que muitas vezes a pessoa é tão carente/insegura que acaba nem percebendo o que está fazendo para obter a aprovação alheia. Você desconfia estar agindo desse modo? Se você passa a maior parte do seu tempo doente, há algo errado. Pense bem: isso é normal? Que tal buscar ajuda? Que tal descobrir os reais motivos de tanta doença? Lembre-se: TUDO começa na mente!


P.S.> Se você está lidando com um Hipocondríaco que foi mimadíssimo pelos pais e que CONTINUA SENDO, esqueça! Não tem jeito. Você não vai conseguir lidar contra toda uma estrutura familiar neurótica. Vá gastar seu tempo com alguém mais saudável e de bem com a vida! ;)



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uma Carta de Amor

Tudo que de você eu quis
é tão pouco no fundo
porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina,
essas coisas de nada, cotidianas,
espiga, cabeleira e dois torrões
o odor de teu corpo,
o que diz de qualquer coisa,
comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco,
e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim,
que me ames com violenta prescindência
da manhã, que o grito
de sua entrega se lance
na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos
seja outro signo da liberdade.

(Julio Cortázar)


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Aprendendo com nossos Encontros e Desencontros

"O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação."
(Carl Gustav Jung)



Ao longo da vida temos diversos encontros e desencontros. Encontramos pessoas que se tornam especiais, que nos inspiram e nos dão bons exemplos, ampliando nosso repertório de conhecimentos e experiências. Mesmo que essas pessoas convivam conosco por pouco tempo, a intensidade do encontro pode ser tão expressiva que transforma a forma pela qual compreendemos o mundo de maneira bastante profunda. Quantas e quantas vezes você se lembrou de algo que alguém lhe ensinou, seja de maneira direta ou indireta? Você tem consciência do quanto pode ser influenciado beneficamente pelos outros?

Somos criaturas sociais. Mesmo as pessoas mais tímidas e reservadas necessitam conviver com outros seres humanos. Convivendo com os outros e observando seu comportamento temos a chance de nos tornarmos indivíduos melhores, sem a menor sombra de dúvida! Quantas e quantas coisas boas você aprendeu com sua família, seus amigos, seus professores, seus colegas de trabalho? Quantas vezes os problemas alheios lhe fizeram perceber as coisas de uma maneira diferente? Quantas vezes uma palavra de carinho melhorou  o seu dia? Quantas vezes um bom conselho caiu como uma luva?

As relações amorosas são aquelas que nos oferecem as maiores chances de reflexão e transformação. Isso acontece porque esse tipo de relacionamento costuma despertar o que há de melhor (amor, carinho, respeito, altruísmo, solidariedade) e pior em nós (raiva, insegurança, ciúmes, medo, complexos). Mesmo que o relacionamento tenha sido curto, saímos dele transformados, pois o convívio íntimo com alguém que provoca reações intensas em nós não pode ser ignorado. Mesmo que tenhamos sofrido, chorado e passado por decepções, aprendemos novas coisas e adicionamos esse conhecimento à nossa experiência de vida. É por isso que devemos ser gratos a todos os relacionamentos que tivemos, mesmo que eles não tenham "dado certo". O nível de aprendizado dessas interações é absurdamente alto, trazendo a nós insights sobre nós mesmos de maneira rápida e certeira.

Logicamente aprendemos coisas ruins com as pessoas também. Existem pessoas que nasceram para dar maus exemplos e para perturbar a vida alheia. Muitas vezes somos magoados e atingidos por esse tipo de conduta. Não tem como evitar aquele colega de trabalho mau caráter, ou então aquele parente inconveniente. Mesmo nesses casos, saímos transformados do relacionamento. Aprendemos o que NÃO queremos ser, definimos o que NÃO queremos fazer com as nossas vidas. Mesmo as pessoas que nos prejudicaram nos ensinaram algo, nos fazendo ver como NÃO agir. Por isso, considerar tudo como aprendizado é um jeito de pegar os limões que a vida nos deu e fazer uma bela limonada, tirando as melhores lições possíveis das interações infelizes.

Eu aprendi muito e continuo aprendendo com TODAS as pessoas que já passaram pela minha vida. Toda interação é valiosa e nos faz refletir. Obviamente há pessoas que se tornam modelos para nós (no meu caso, minha mãe, por exemplo), cujo comportamento e opiniões tendemos a espelhar fortemente. Mesmo pessoas com as quais convivi pouco tempo me marcaram profundamente, tanto para o bem quanto para o mal. O válido é ser grato por todo tipo de experiência que nos é oferecida, focando elegantemente na parte boa de cada uma delas.

Pode parecer clichê, mas cada encontro que temos em nossa vida deixa impresso em nós alguma coisa. As pessoas realmente deixam pedacinhos de si conosco, seja na forma de palavras, gestos, ações ou exemplos. Tendo consciência disso, o ideal seria deixarmos sempre uma parte boa de nós com os outros. Boas palavras, boas ações, bons exemplos. Mesmo com aquele ser que não foi assim tão legal com você, esforce-se para deixar uma demonstração de gentileza e humanidade. Quem sabe a pessoa reflete um pouquinho com seu gesto e se sente animada a melhorar-se um pouco? É difícil, claro, mas a tentativa é sempre válida, afinal, a esperança é a última que morre!

Escolha sempre as melhores companhias. O ditado "Diga-me com quem andas e te direi quem és" é mais do que verdadeiro. Aproxime-se de pessoas que lhe acrescentem algo e tente sempre passar boas coisas aos outros. Valorize sempre o aprendizado que cada relacionamento pode lhe oferecer. Afinal, ninguém consegue viver sozinho, não é? Façamos sempre o melhor para imprimir boas coisas nas lembranças de todos aqueles que passaram pela nossa vida!

domingo, 11 de agosto de 2013

A menina sem estrela (Memórias) - Capítulo 10

Capítulo 10

Volto aos meus quatro anos. E, de repente, os cegos apareceram. Ou por outra: — antes dos cegos, vi uma menina, de pé no chão. A menina corre, atravessa a rua e vai beijar a mão de um padre. Durante toda a minha infância, na rua Alegre, havia sempre um padre e sempre uma menina para lhe beijar a mão. Mas como ia dizendo: — a pequena, dos seus sete anos, voltou para a calçada de cá. A batina continuou e sumiu, lá adiante, na primeira esquina.
A menina sumiu também, como se jamais tivesse existido. Anos depois, mudamos para a Tijuca, rua Antônio dos Santos (depois seria Clóvis Bevilacqua). Perto de nós, morava o juiz Eurico Cruz e, ao lado, o senador Benjamin Barroso. Eis o que quero dizer: — nos dois ou três anos de Tijuca, não vi um único e escasso padre. Havia uma igreja — e ainda há — na esquina de Barão de Mesquita com Major Ávila. Lembro-me da igreja, dos santos e não dos padres.
Fiz o parêntese e volto à rua Alegre. Depois que o padre dobrou a esquina, os cegos apareceram. Eram quatro e um guia. Estavam de chapéu, roupa escura, colarinho, gravata, colete, botinas. Juntaram-se na esquina da farmácia e tocaram violino. Não acordeão, não sanfona, mas violino. Saí da janela, fiz a volta e fui ver, de perto, os ceguinhos. Eram portugueses. E o curioso e que, por muitos anos, só conheci cegos portugueses. Brasileiro, nenhum.
Fiquei ali, na esquina, em adoração. E os cegos — todos de chapéu — tocaram uns vinte minutos. Lembro-me bem: — um deles tinha, atravessando o colete de um bolso a outro bolso, uma corrente de ouro. No fim o guia passou o pires. Cada um pingou seu níquel. E, então, voltei correndo para casa. Não falei com ninguém, meti-me na cama. Minha vontade era morrer. Fechei os olhos, entrelacei as mãos, juntei os pés. Morrer. Minha mãe entrou no quarto; pousou a mão na minha testa: — “O que é que você comeu?”. Comecei a chorar, perdido, perdido.
E, de repente, uma certeza se cravou em mim: — eu ia ficar cego. Deus queria que eu ficasse cego. Era vontade de Deus. Mas falei em quatro anos. Engano, engano. Eu tinha seis anos e não quatro. Nasci em 1912 e isso aconteceu em 1918, na espanhola e antes da espanhola. Tenho certeza: — seis anos. Nunca mais me esqueci dos cegos e posso repetir, sem medo da ênfase: — nunca mais. Mas por que, meu Deus, por que pensava neles, dia e noite? Pode parecer uma fantasia de menino triste. E se disser que, já adulto, homem feito, a obsessão continuava intacta? Obsessões, sempre as tive. Mas essa nunca me abandonou. Aos trinta anos, 35, quarenta, eu sonhava com os cegos; e os via escorrendo do alto da treva.
Quando minha família já ia sair de Aldeia Campista para a Tijuca, aconteceu o seguinte: — um menino, que brincava muito comigo, apanhou um canário e picou com o alfinete os olhos do passarinho. Eu me senti, eu, aquele canário de olhos furados. E me imaginei cego, em casa, vagando por entre mesas e cadeiras. Meninas, senhoras, visitas teriam pena de mim, amor por mim. Na rua, diriam: — “Naquela casa, mora um menino cego”.
Mas quando mudamos para a Tijuca, já não estava tão certo se seria mesmo eu o cego. Podia ser minha mãe, ou um dos meus irmãos. Talvez Roberto. Milton, não, nem Mário. Sempre imaginei que meu pai, jornalista de fúrias tremendas, morresse, um dia, assassinado. Já minha mãe tinha um problema de visão. Mas fosse eu, minha mãe, meu irmão, alguém ficaria cego, alguém. Eis a verdade: — ano após ano, me convencia de que os cegos do violino insinuavam um vaticínio. Meu Deus, não fora por acaso que, um dia, quatro cegos tocaram embaixo de minha janela, ou pertinho de minha janela. Tocavam para mim, não para os outros, não para ninguém, tocavam para um menino de seis anos.
Até os dez anos, doze, não tive medo da treva. Houve um momento em que teria a vaidade de ser o único menino cego da rua. Mas o tempo foi passando. E o pavor veio com a idade. Adulto, eu não fazia mistério: — “Se eu ficar cego, meto uma bala na cabeça”. Não “uma bala na cabeça”; daria um tiro no peito como Getúlio. Ah, Getúlio estourou o coração mas preservou sabiamente a cara para a História e para a lenda. Pelo vidro do caixão, o povo espiou o rosto, o perfil intactos. Kennedy, não. A bala arrancou-lhe o queixo forte, crispado, vital. Tiveram que fechar o caixão. O povo precisa ver o seu líder morto. Nada, nem medalha, nem estátua, nem cédula, nem selo substitui o último rosto, o rosto morto.
Muitos anos depois, conheci Lúcia. Lembro-me de que, numa de nossas conversas, falei-lhe assim: — “Desde criança, tenho medo de ficar cego. Mas se isso acontecesse, eu…”. Fiz a pausa e completei: — “…eu meteria uma bala na cabeça”. Isso era e não era uma agressão sentimental, uma espécie de terrorismo. Afinal, o amoroso é sincero até quando mente. No fundo, no fundo, as minhas palavras queriam dizer outra coisa, ou seja: — “Mesmo cego, eu viveria se você me amasse”. Por outro lado, sei que não é normal essa fixação numa fantasia infantil. Mas não tenho medo de confessar a minha morbidez, nem ela me envergonha. Eu a compreendo e a recebo como uma graça de Deus.
Mas estas notas não estariam completas, se eu não lhes acrescentasse uma explicação. Quero dizer que o medo de uma cegueira utópica, apenas sonhada, me tornou humanamente melhor. Ou, se não me tornou melhor, me deu a vontade obsessiva de ser bom. Mas, como ia dizendo, continuou o meu romance com Lúcia. Pouco a pouco, fui dizendo as coisas que são tudo para mim: — “Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor”. E dizia: — “Quem nunca desejou morrer com o ser amado não amou, nem sabe o que é amar”. As nossas conversas eram tristes, porque o amor nada tem a ver com a alegria e nada tem a ver com a felicidade. Quando nos casamos, eu lhe disse: — “Nem a morte é a separação”. Ela concordou que nada é a separação.
Depois, a gravidez. Ah, quando eu soube que ela só podia ter filho com cesariana. Não me falem em fio de navalha. O fio da navalha é um título de romance ou de filme. Mil vezes mais frio, e diáfano, e macio, e ímpio, é o fio do bisturi da cesariana. O marido, cuja mulher só pode ter filho com cesariana, terá de amá-la até a última lágrima.
“Se for menina, o nome é Daniela”, disse Lúcia. Achei um nome doce e triste (gosto dos nomes tristes) de personagem de Emily Brontë. Uma noite, Lúcia foi internada, às pressas, na Casa de Saúde São José. Parto prematuro. Minha mulher chega com dr. Cruz Lima e d. Lidinha. Dr. Marcelo Garcia e dr. Silva já estavam lá. Foi uma correria de médicos, enfermeiras, irmãs. Dr. Waldyr Tostes ia fazer o parto.
Naquela noite, pensei muito no staretz Zózimo. Sim, na sua bondade absurda, senil e terrível do personagem dostoievskiano. Há um momento em que somos ostaretz Zózimo. Dr. Marcelo Garcia era o staretz, e o dr. Silva Borges, e o dr. Waldyr Tostes. Dr. Cruz Lima também era o staretz Zózimo. Tudo aconteceu numa progressão implacável. Daniela nasceu e não queria respirar. Dr. Marcelo Garcia fazia tudo para salvar aquele sopro de vida. De manhã, quase, quase a perdemos. A irmã, desesperada, batizou minha filha no próprio berçário. Dr. Cruz Lima, dr. Marcelo, Silva Borges lutaram corpo a corpo com a morte. Mudaram o sangue da garotinha. E ela sobreviveu.
Lúcia quis ver a filha no dia seguinte. E veio numa cadeira de rodas, empurrada por d. Lidinha. Voltou chorando, e dilacerada de felicidade. Também fui espiar Daniela pelo vidro do berçário. Uma enfermeira aparece e me pergunta, risonhamente: — “O senhor é o avô?”. Respondi, vermelhíssimo: — “Mais ou menos”. Mais uma semana, Lúcia e Daniela vinham para casa. Tão miudinha a garota, meu Deus, que cabia numa caixa de sapatos.
Dois meses depois, dr. Abreu Fialho passa na minha casa. Viu minha filha, fez todos os exames. Meia hora depois, descemos juntos. Ele estava de carro e eu ia para a TV Rio; ofereceu-se para levar-me ao posto 6. No caminho, foi muito delicado, teve muito tato. Sua compaixão era quase imperceptível. Mas disse tudo. Minha filha era cega.
(Nelson Rodrigues)




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Amor e a Admiração

A base do Amor é a Admiração. Não sou eu quem está falando, Platão já disse isso no século V a.C., em "O Banquete". Sem admirar o outro, não há como respeitá-lo, não há como amá-lo. Verdade ou mentira?



Quando conhecemos alguém, temos a tendência a procurar nele ou nela afinidades e similaridades. Isso se aplica tanto à amizade quanto ao amor, afinal, não nos identificamos com pessoas que não são parecidas conosco. Tendemos a achar características que "batam" com as nossas e começamos a observar o outro com bons olhos. Quando encontramos pontos em comum com alguém, criamos uma comunicação harmônica, nos abrimos para essa pessoa e criamos vínculos, criamos laços. É assim que as amizades e também os relacionamentos amorosos começam.

Pense nos seus melhores amigos. São pessoas muito diferentes de você? Pode ser. Mas pense naqueles que lhe parecem mais legais, mais especiais, mais próximos. Você notará que são pessoas que pensam como você, que têm objetivos de vida semelhantes, que acreditam nas mesmas coisas. Talvez vocês usem até os mesmos vocábulos e expressões linguísticas! Sim, isso acontece de verdade, a linguagem é um modo fidedigno de expressarmos o que se passa em nossa mente.

Ter um relacionamento com alguém semelhante é uma verdadeira delícia: podemos compartilhar gostos, interesses, experiências. O casal se identifica e ambos se sentem confortáveis, pois sabem que máscaras não são necessárias. Você pode se expressar livremente, pois sabe que o outro vai te entender. E é claro que ambos terão um alto grau de entendimento e harmonia, uma vez que a comunicação é fluida e sem obstáculos. Sabe aquele axioma de "Não fazer para os outros o que você não quer que façam para você"? Uma relação fluida entre pessoas similares funciona assim. Se eu não gosto de gritos e palavras ríspidas, por exemplo, sei que meu parceiro similar a mim se incomodará com tal comportamento e, obviamente, não o farei. Tudo fica bem mais fácil!

Há teóricos que acham que os opostos se atraem e se complementam, e que o "saudável" é nos relacionarmos com pessoas diferentes de nós. Será mesmo? Será que não é uma perda de tempo, um desperdício de vida? Pra quê gastar sua energia com coisas e pessoas que dão trabalho, que estressam, que desagregam? Já temos tantos problemas no trabalho, na vida moderna, na família, será que escolher um relacionamento desgastante com um parceiro totalmente diferente de nós é mesmo uma decisão sábia? Pra quê dificultar tanto as coisas?


Quando admiramos nosso parceiro, queremos conviver com ele, aprender com ele, crescer com ele. Sabemos que temos muito a ensinar e a aprender. Sabemos que podemos unir forças para progredir, para ir para a frente. O verdadeiro Amor deriva da Admiração, não de conflitos ou da sensação de falta, de escassez. Se olhamos nosso parceiro e pensamos "Fulano(a) poderia ser assim", "Siclano(a) poderia ser assado", "Eu queria fazer tal e tal coisa com Beltrano(a), mas ele/ela não aceita de jeito nenhum" ou a fatídica "Queria tanto que meu parceiro(a) mudasse...", sabemos que o negócio já desandou. A grande verdade é que acabamos nos ressentindo por ter escolhido mal e começamos a desejar pessoas mais coerentes com nossos pontos de vista, opiniões, aspirações, sonhos e objetivos. Ninguém muda, as pessoas podem fazer concessões para que o relacionamento não vire um inferno, mas nesse caso ambos se sentirão ressentidos e tolhidos. É separação na certa, a não ser em casos onde ambos decidem viver uma vida decrépita e medíocre a fim de satisfazer a sociedade.

Considerando tudo isso, vale a máxima: "Cada macaco no seu galho." Se você realmente quer ter um relacionamento amoroso DE VERDADE, escolha um parceiro(a) parecido com você, o máximo possível. Rusgas existirão? Certamente. Mas pelo menos você saberá como lidar com a situação sem dizer para si mesmo pela milésima vez: "Meu Deus, ONDE eu estava com a cabeça quando me comprometi com esse ser?"

Ah! Só um último comentário:
Se você acha que querer amar alguém igualzinho a você soa um tanto quanto narcisista, saiba que TODOS somos seres narcisistas. Jung e Freud estudaram muito sobre o tema e é lógico que nos sentimos extremamente confortáveis com almas afins. Portanto, deixe a máscara de bom samaritano de lado e se jogue nos seus desejos, busque sua felicidade sem culpa, afinal, ser um pouquinho narcisista é normal, natural e indicado para todos! rs